Longe dos confrontos que amedrontaram o Rio de Janeiro, bondinho, petiscos e uma vista privilegiada das praias cariocas. Pavão-Pavãozinho está fora do mapa turístico da cidade, mas quer corrigir a ausência até 2016. Até lá, a favela, que pretende ser a anfitriã das Olimpíadas, com direito a serviço de primeira nas biroscas locais, prepara um passeio para fazer concorrência à beleza do circuito já conhecido internacionalmente.
Para chegar à favela, entre os bairros nobres de Ipanema e Copacabana, na zona sul, são 10 minutos de carro do litoral. Já para subir ao topo do morro, são pelo menos 40 minutos a pé, com o "conforto" de escadarias asfaltadas, mais de 500 degraus, e caminhos iluminados à noite.
A longa subida
As "facilidades" que devem servir aos turistas, no entanto, são dificuldades para os moradores. "Aqui, só ando de proteção no joelho", conta uma moradora, que sobe e desce o morro todos os dias.
Hoje, para subir o Pavão-Pavãozinho, existem duas maneiras. Uma, é andar a pé por mais de 500 degraus até topo. Outra, é cortar a metade do caminho por um bondinho, que tem cinco estações
"Tem que se ganhar em alguma coisa", diz uma proprietária de um dos pontos com melhor vista para orla de Copacabana. "É uma academia forçada", diz a moradora, que ainda precisa percorrer uma distância de 15 minutos para chegar a sua casa.
Ela abre a varanda aos turistas que já realizam passeios no local e pegam um bondinho para ir até lá. A espécie de "gaiola" segue lotada por cinco estações e serve a comunidade, de 28 mil habitantes, como um meio de transporte mais do que necessário.
Segundo a moradora que trabalha junto ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal, a favela não está interessada em intervenções estruturais para receber os turistas. "A ideia do governo para fazer as melhorias é abrir ruas, como se ruas largas trouxessem paz, mas isso só vai destruir a comunidade", defende.
A reclamação contra as obras do PAC aumenta entre os moradores das partes mais altas do morro. É lá que ainda sobrevivem as últimas casas que ainda não se transformaram em mini-prédios, bloqueando a visão do mar na favela que cresce, hoje, apenas verticalmente. Além disso, moradores dizem que o local é uma ilha de paz em meio a tantos conflitos entre traficantes na cidade. Valdete, a proprietária de um dos pontos com melhor vista para a orla de Copacabana, abre sua varanda para a visita de turistas interessados no passeio
A comunidade ainda é ocupada pelo Comando Vermelho. Na caminhada, focos da presença dos traficantes. Motociclistas que vigiam a favela e observam os turistas.
"Aqui é muito difícil ter tiroteio. Quando se vê na televisão que teve alguma operação, é do lado do Cantagalo", diz Valdete. "É uma favela da zona sul e é por isso que o governo não faz nada muito brusco aqui."
"Às vezes aparece um gringo", conta ela, que também sofre com as escadas. "O ruim mesmo daqui é isso, porque a gente tem essa vista, tem árvores, tranqüilidade para morar. Aqui é difícil ter assalto. Mas a mercadoria que vem lá debaixo, para abastecer o comércio, é muito cara, porque o transporte é a pé. Por isso que, se chegar turista aqui, vai pagar caro o refrigerante", adianta. Nesse momento, chega o marido com as provisões do dia. Cerca de 10 kg de mantimentos carregados nas costas, desde o bairro.
Outro comerciante da comunidade promete atender o turista com sua especialidade - pão de dois, com peixe.
Além de temperar arroz, feijão branco e misturar com carne seca e "está pronto". Tem ainda caldo de mocotó, galinha caipira e toda uma série de aperitivos. "Se precisar falar inglês, ele dá um jeitinho."
Interprete na comunidade Pavãozinho
A comunidade já tem inclusive um intérprete, para ensinar os comerciantes pelo menos 20 frases em inglês até o ano das Olimpíadas: Cristiano, 21, formado na escola local, o Solar Meninos de Luz. "Eu já vou começar a fazer isso a partir de agora, assim, dá tempo de ficar tinindo até lá."
Quem destaca o estudante de engenharia para a empreitada é o empresário e fotógrafo Daniel Plá, que já organizou um Réveillon na comunidade em 2007. "Tenho certeza que será um passeio que vai valer a pena justamente pelos inúmeros contrastes, a cultura, as pessoas. Esse lugar é lindo, rico, e o turista vai gostar muito", afirma.
Como turista, você acharia esse passeio interessante ou arriscado? Para as agências de turismo, valeria a pena incluir passeios visitas às comunidades em seus roteiros? Interaja com a gente!